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Um sábado divertido

- Arnaldo! Que tal irmos amanhã a Interlagos? Vai ter corrida da Superclassic e o Gildo, o Paulo Loco e o Luque vão correr. É a final do campeonato. Assim aproveitamos e vamos passeando com uns dos meus carros; um em cada um, que eles estão precisando andar – o Diego Inzaurraga convida. Ele trabalha com comércio de carros antigos. Gosta muito e manja muito, pois ele vem da escola argentina, onde o antigomobilismo sempre foi mais avançado do que aqui. Sua especialidade é descobrir carros que estão escondidos por aí e trazê-los para o meio.
- Topo! Vamos com que carros? – pergunto.
- Se fizer sol vamos com os conversíveis.

Sábado amanheceu ensolarado e logo cedo eu já estava com o Diego em sua garagem. Os conversíveis eram dois, e dois exagerados: um enorme Cadillac DeVille 1966, medindo 5,67m x 2,02m e um mínimo Fiat 800 Spider 1969, medindo 3,68m x 1,43m.

Na ida fui com o Fiat. O Fiat 800 Spider é uma raridade. Esse conversível desenhado pela Vignale – que no início da década de 1950 desenhou e encarroçou uns dos mais belos Ferrari – deriva do modelo cupê e, como na Itália um conversível de dois lugares é comumente chamado de Spider, temos aí o “nosso” Spider 800. Esse modelo spider só foi fabricado na Argentina e era o único conversível nacional produzido em série da época. De 1966 a 1970 conseguiram construir um por dia útil, o que deu um total de só 1201 unidades. Motor traseiro 4 cilindros, 797 cmÅ, 40 cv a 5.200 rpm, torque de 6 kgfm a 2.800 rpm. Peso: 696 kg. Velocidade máxima de 120 km/h, 0 a 100 km/h em 39 seg.

O carro é uma gracinha, gostosinho de guiar e faz curva feito gente grande, graças à sua boa suspensão independente nas quatro rodas. Fui rapidinho costurando o trânsito, fazendo curvas agarradinho ao chão e me divertindo pra burro, e nem dei bola pra pouca potência. E lá fui eu descabelado e achando ótima a concepção da época de oferecer um carrinho simples – meio kart meio carro –, barato, econômico e prazeroso de guiar, além do mais, conversível e muito charmoso. Hoje em dia só fazem carros conversíveis caros e cheios de recursos dispensáveis para a boa diversão.

Chegamos ao autódromo e fomos aos boxes ver o pessoal. Primeiro o Gildo, no box 21, com seu Zé do Caixão com motor AP 2000. Ele estava contente, pois largaria em 6o. À sua frente somente carros mais bem preparados, como o Puma do Paulo Loco com motor AP 2000, o BMW 2002 com motor AP 2000 do Luque, e a carretera Topolino AP do Finotti. Como vêem, o motor AP está em quase todos, por sua potência e resistência.

No campeonato da Superclassic estão largando mais de 25 carros (logo serão uns 35) e há divisões quanto à preparação permitida, então, correm juntos desde o DKW do Flavio Gomes com quase nada de preparação no motor original, a esses Puma com motor AP que estão rodeando os 200 cv. Os fortes viram Interlagos em torno de 2 minutos e os mais originais em torno de 2:25. O Gildo marcara 2:06 e com isso garantira a sexta posição de largada. O Diego e eu, grandes xeretadores, já fomos dando nossa opinião sobre o que faltava no carro do Gildo: o Diego disse que o coletor de escape estava errado, que os canos estavam com comprimentos desiguais até se juntarem os quatro em um. Ele disse que além disso tinham curvaturas malfeitas, enrugadas, e uns com curvas fechadas e outros abertas, e isso tudo gerava pressões desiguais e atrapalhava o motor. Já eu opinei que outro problema era a caixa de câmbio que estava mal escalonada para Interlagos, já que era uma caixa de câmbio original do motor VW a ar, de 4 marchas, e que o certo era trocar as engrenagens colocando as engrenagens da caixa P3, onde a 1a marcha é bastante longa para fazer a curva mais fechada do circuito, a Bico de Pato (que ele costuma fazer em 2a). Com isso ele perderia um pouco na largada mas em compensação as marchas subseqüentes são mais próximas umas das outras e cada vez que ele trocasse de marcha o giro cairia menos e elas entrariam com mais força, mais potência do motor. Fora essas, o carro estava OK, além de bonito.

Fomos ver o Puma AP 2000 do Paulo Loco. Nessas horas o Paulo fazendo jus ao apelido passou zunindo pelos boxes num ultra-mini-bugue Karman-Ghia do tamanho de um tênis de jogador de basquete e com um motor de moto Honda 100 cmÅ, três marchas e com o escapamento que era um canão grosso e de ronco ardido. Não sei como ele coube lá dentro com aqueles pernões de garça que ele tem. Tuf, tuf, tuf! Chega o buguinho. – Pó, Naldão! Meu Puma tá andando pracaramba de motor, mas a traseira não pára. Tá dando uns trancos duros, meio louca, balançando – ele chega esbaforido, agitado e brincalhão, como sempre. O Paulo é o cara quente dos Hot-Rod. Sabe tudo, conhece todos, e pra começar conversa, está fazendo um Hot com dois motores V8 biturbo, duas caixas de câmbio e dois diferenciais. Não me perguntem como.

Dei opinião no Puma do Paulo: o curso da suspensão traseira ficou curto de tão rebaixado e a traseira bate no fim do curso. O motor AP é mais pesado que o motor VW a ar e mais comprido, então faz mais pêndulo atrás. Quando numa curva forte a traseira bate no fim do curso, ela rebate desestabilizando a traseira. O jeito é erguer um pouco mais a traseira, endurecer amortecedores e instalar uma barra compensadora mais travada atrás e o Amador (5667.3412) acerta isso num estralar de dedos.

E assim seguimos dando opinião em tudo que é carro e não recebemos nada por isso a não ser nos chutarem de bicuda os traseiros, nos expulsando dos boxes pra deixar eles trabalharem sossegados porque pentelho dando opinião idiota é o que não falta. E fomos embora, eu guiando o Cadillacão que mais parecia que estava flutuando numa nuvem e eu achando que era muita lata e motor (2.130 kg, V8 de 7 litros, 340 cv) pra levar um mísero desmiolado como eu que estava só de olho no Fiat Spider branquinho que o Diego levava adiante costurando feito um camundongozinho pela Marginal Pinheiros...

Nota: o Gildo pilotou o fino e muito nos orgulhou, e não fosse uma saída de pista na Curva do Laranja, na última volta, chegaria em 3o ou 4o. Deve ter chegado em 5o, por aí. O Paulo andou mais que o carro. Ele é o Gilles Villeneuve da Superclassic, sempre dá show. O Luque, com o BMW AP, e o Finotti com o Topolino disputaram ferrenhamente a liderança. Quem ganhasse ganhava o campeonato. Não sei quem levou, porque parece que houve toque na reta final e a decisão ficou para a direção de prova.

Contatos do Diego: diegoinzaurraga@yahoo.com.ar - (11) 7205.9870


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br




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PIRASSUNUNGA — SP
tel. (19) 9729-1778

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