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DÚVIDA CRUEL

De vez em quando aparece algum amigo perguntando o que é que acho desse ou daquele carro. Sou muito metido, portanto, opino; dou opinião fácil, desde uma dúvida entre um Gordini 1093 ou um Fusca 1200 a um Ferrari ou um Lamborghini. Vou-m’embora no meu Fusca desmantelado, procurando bitucas de cigarro no meio-fio, tomo resto de refrigerante das garrafas patch que jogam pelas janelas, mas, que dei minha opinião sobre carros de centenas de milhares de dólares, dei; e muitas vezes a opinião cola. Para tanto, faço uma profunda “avaliação psicológica” do sujeito, pois, no fim das contas, o que interessa é ele ficar satisfeito, e não eu, pois o carro não é pra mim, é pra ele.

Mas este caso estava fácil, pois conheço o “enduvidado” há muitos anos e já sei bem como é o seu espectro psicológico. Sua dúvida estava entre um Corvette Z06 zero-km, o mais modelo forte, de 505 cv de fábrica, e um Ferrari 550 Maranello 1998. Os dois custam por volta de 500 mil reais... cada um e têm potência semelhante, além de motor na frente. Um é zero-km e o outro 1998.

Para sanar a dúvida o melhor é guiar, então, passei na loja de autos importados Forest Trade (R. Manuel da Nóbrega 1.882, www.foresttrade,com.br, tel 3882.800) e, tendo ao lado o simpático Marco Aurélio, gerente da loja, saí guiando o Corvettão prateado em direção à casa do amigo. Eu já havia andando num Corvette igual em Interlagos (motivo de matéria anterior desta coluna), mas não guiado; um piloto da GM me levara pra umas voltas. Assim eu já sabia do que o carro era capaz, pois na pista ele acelerou a uns 240 km/h e parecia estarmos a 100 km/h, tal a consistência do carro e tal o excelente trabalho na sua aerodinâmica, pois quase não havia barulho de vento turbilhonando. O carro foi projetado para passar dos 300 km/h, então, rodar a 240 km/h pra ele não é nada, é passeio. Faz curvas com facilidade e equilíbrio. Tem a caixa de câmbio, de seis marchas, no eixo traseiro (uma trans-axle, ou trans-eixo em português) para distribuir melhor o peso sobre os eixos e assim sua distribuição é praticamente 50%/50%. Os braços da suspensão traseira – leves, por serem de alumínio – são longos, prendem-se perto da caixa de câmbio, o que faz com que haja pouca alteração da cambagem das rodas durante a movimentação da suspensão (quando mais curtos esses braços, maior a alteração da cambagem, tal qual o movimento de um compasso mais ou menos aberto). Na ocasião ele me disse que ele e o Lossaco acharam que o Corvette era mais rápido na pista que um stock-car, mesmo estando com o ar/condicionado ligado...

Aperto uma tecla no painel e o motor big-block de 7 litros entra em funcionamento. Marcha lenta serena, tranqüila, nem parecendo que acabamos de acordar um Hércules. Sento, ajeito distâncias. O volante sobe e desce, vai e vem, e o banco tem mais movimentos que cadeira de dentista, portanto, fico em posição ótima. Embréio num pedal leve e de peso constante e engato a 1a na pequena alavanca de câmbio que fica sobre o alto túnel, onde apóio o cotovelo. Saio devagar. Direção leve e rápida, mas não rápida demais a ponto de ser nervosa, chata para o dia a dia, o que é bom.

Sua assistência hidráulica é progressiva, ou seja, quanto mais o carro corre, mais dura ela fica, e isso é ótimo. Como todo carrão americano, o volante parece desligado dos pneus; quase não transmitindo as imperfeições do piso. Isso é proposital, ao gosto americano, diferente do meu, que gosto de mais sensíveis, mais italianas. Devagar, o motor é tão bem comportado que imagino poder instalá-lo numa limusine Cadillac e transportar o Michael Jackson em plena crise nervosa sem abalar o boneco. Andando tranqüilo, marco uma bobeira e da 1a marcha passo por engano para 4a. Olha... confesso, demorou um pouco pra perceber, pois o motor, mesmo estando abaixo das mil rpm, foi extremamente compreensivo e cortês e seguiu aumentando a velocidade e nem deu bola. Um Hércules. Nunca vi um tróço desses! Dizem que nesse carro, assim como no Corvette mais fraco, o de 400 cv, o usuário costuma pular uma marcha, ou seja, de 1a põe 3a e assim vai, porque o torque é tão fabuloso e amplo, e o motor tão afinado a qualquer rpm, que isso não é esforço algum.

Dei-lhe uma aceleradinha num piso todo enrugado por passagem de ônibus, para ver se ele destracionava, se a traseira quicava. Que nada. Pneus sempre no chão. Fantástico.

A avenida fica limpa de carros e posso acelerar 1a e 2a marchas. Bom... a fábrica diz que ele faz o 0 a 100 km/h em 4,2 segundos. Ele certamente faz, e o faz em 1a marcha. A acelerada é brutal, descomunal, e o que impressiona é a facilidade com que ele é dominado, pois sua frente quase não levanta e o carro segue embicado, com os pneus dianteiros bem postos e agarrados ao chão, resultado do excelente trabalho na suspensão. A tração traseira quase não patina e, apesar das marchas serem longas elas logo acabam, pois o motor as engole sem esforço algum, como se as rodas traseiras estivessem no ar. A cambiada é rápida e precisa. O motor sobe o giro e passa a urrar forte, logo superando as 6.300 rpm e pedindo mais. É surpreendente e estonteante a facilidade com que o Corvette desempenha números fantásticos. Nunca peguei nada igual. Porsche 993 e Maserati Spider ele leva debaixo do braço, tanto em motor quanto em chão, equilíbrio (mesma opinião teve o piloto de Interlagos).

Bom, levei o carro para o meu amigo guiar. Ele, claro, adorou. Achou o carro lindo e com um desempenho nunca imaginado. Agora falta guiar um Maranello 1998 e já achei um. Preto, 13 mil km rodados. Preço semelhante ao Corvette. Vamos ver. Vantagem do Ferrari, mesmo ainda não o tendo guiado: motor 12 cilindros. Desvantagem: não é zero-km.

Oh dúvida cruel! Que vida dura! Melhor que isso só comprando um aviãozão de luxo com o dinheiro dos outros...


Arnaldo Keller
arnaldokeller@yahoo.com.br




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FENO DE COAST-CROSS E TIFTON
FAZENDA CACHOEIRINHA
PIRASSUNUNGA — SP
tel. (19) 9729-1778

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